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id da página: 3614 Aristóteles Saber Aristóteles

Aristóteles Saber

Aristóteles — O Homem e o Saber


Todos os homens tendem por natureza a saber. É indício disto o gosto pelas sensações, pois estas, seu proveito à parte, agradam por si mesmas, e mais que as outras, as da vista. Pois não só para nossos afazeres mas também quando não vamos fazer nada, preferimos o ver, por assim dizer, a todos os outros sentidos. E o motivo é que nos faz as coisas mais notórias e põe de manifesto muitas diferenças.

Os animais, naturalmente, têm sensação, e para alguns deles não se segue dela a memória, e para outros sim, e por isso estes são mais previdentes e capazes de aprender, em relação aos que não podem recordar. São previdentes, mas sem aprender, todos os animais que não podem ouvir os sons (como a abelha e qualquer outro gênero semelhante de animais, se os há), e podem aprender os que, além da memória, têm também aquele sentido. Os outros animais vivem, pois, com imagens e lembranças, mas pouco participam da experiência (empeiria); o gênero humano, contudo, usa também arte (techne) e razões, e nos homens a memória dá origem à experiência, porque muitas lembranças de uma mesma coisa têm por fim a força de uma só experiência. E quase parece que a experiência é semelhante à ciência e à arte; porém a ciência e a arte são nos homens o resultado da experiência, pois "a experiência fez a arte e a inexperiência o acaso", como disse Polo. A arte nasce quando de muitas observações da experiência surge uma só noção geral acerca de todos os casos semelhantes. Julgar que a Calias, que sofre de tal enfermidade determinada, e a Sócrates e assim a muitos, a cada um em particular, convém tal remédio, é próprio da experiência; mas o próprio da arte é dar por assente que tal remédio convém a todos os que, definidos segundo uma mesma espécie, tenham tal enfermidade concreta; por exemplo, a todos os flegmáticos ou biliosos que tenham febre. Segundo isto, no que se refere ao saber, não parece que a experiência em nada difira da arte; e vemos que com mais frequência acertam os experimentados que os que têm conhecimento sem experiência. (A causa disto é que a experiência é um saber de cada coisa particular, enquanto a arte é o conhecimento em geral, e toda ação e produção se referem a coisas particulares. O médico, certamente, não cura o homem, a não ser per accidens, e sim Calias, Sócrates ou a qualquer outro dos assim chamados, aos quais ocorre o ser homem. Por isso, se alguém possui o conhecimento sem experiência e conhece o geral, ignorando no entanto o particular que implica, errará muitas vezes a cura, visto que quem deverá curar é cada um).

Cremos, não obstante, que o saber e o entender pertencem mais à arte que à experiência, e pensamos que são mais sábios os peritos que os experimentados, visto que a sabedoria acompanha os homens na medida em que conhecem. E isto porque uns conhecem a causa e os outros não; os experimentados sabem o quê, mas não o porquê, enquanto os outros conhecem o porquê e a causa. Opinamos por isso que em cada coisa os mestres são mais dignos e sábios e têm mais conhecimento que os trabalhadores manuais, já que conhecem as causas do que fazem e, estes, pelo contrário, como também alguns dos seres inanimados, fazem, sem saber o que fazem, como o fogo que queima; se bem que os seres inanimados fazem tudo por uma certa natureza, e os trabalhadores manuais pelo costume. De modo que não são mais sábios enquanto trabalham mas na medida em que possuem o conhecimento e têm notícia das causas. Em geral, é sinal do que sabe e do que não sabe o poder ensinar, e por isto cremos também que a arte é mais ciência que a experiência, visto que os peritos podem ensinar e os só experimentados não o podem. Ademais, não cremos que nenhuma das sensações seja sabedoria, embora sejam certamente conhecimentos supremos de cada coisa particular; mas não dizem o porquê acerca de nada; por exemplo, por que o fogo é quente, e sim só que é "quente.

Aquele que primeiro encontrou uma arte deste gênero, superior às sensações comuns, deve ter sido admirado pelos homens, não só pela utilidade de seu invento como por ser sábio e diferente dos demais. Mais adiante, uma vez inventadas a maioria das artes, referidas umas às necessidades e outras ao bem-estar, foram sempre considerados mais sábios os dedicados a estas últimas, porque suas ciências não se referiam à utilidade. Por último, já constituídas todas as desta espécie, foram inventadas aquelas que não se referem nem ao prazer nem às necessidades, primariamente naqueles lugares onde era possível algum ócio (schole). Por isso, as artes matemáticas se constituíram primeiro no Egito, pois ali era permitido à classe sacerdotal uma certa desocupação.

Na Ética já se disse qual a diferença entre a arte e a ciência (episteme) e as demais deste gênero, pelo que dizemos agora que todos concordam que a chamada sabedoria (Sophid) versa acerca das primeiras causas e dos princípios, e por isso, como antes se disse, o experimentado parece mais sábio que os que têm qualquer gênero de sensação; o perito mais que o experimentado; o mestre mais que o trabalhador manual, e as ciências teoréticas se aproximam mais à sabedoria que as produtivas. É claro, pois, que a sabedoria é uma ciência que versa sobre certas causas primeiras e princípios.

Visto procurarmos esta ciência, deve-se considerar de que causas e princípios a sabedoria é ciência; e talvez isto ficasse mais claro se lançássemos mão do que entendemos por sábio. Em primeiro lugar, entendemos que o sábio tem ciência de todas as coisas, enquanto é possível, sem a ter de cada uma delas. Depois, é sábio aquele que pode saber as coisas difíceis e não fáceis de conhecer para o homem. (A sensação é comum a todos; portanto, é fácil e de modo algum privativa do sábio). Ademais, o mais exato e o mais capaz de ensinar acerca das causas é o mais sábio em toda ciência. E entre todas as ciências é mais sabedoria a que se elege por si mesma e pelo saber do que a que se procura por suas aplicações, e a principal mais que a subordinada, pois não corresponde ao sábio receber ordens mas as dar, nem obedecer a outro e sim, pelo contrário, a ele o menos sábio.

Tantas e tais são as ideias que temos acerca da sabedoria e dos sábios. Delas, o saber todas as coisas convirá necessariamente ao que mais possua a ciência totalitária, pois este sabe de certo modo todo o subordinado. As coisas mais difíceis de conhecer para os homens são também as mais gerais, porque são as que estão mais longe dos sentidos. As ciências mais rigorosas são as que se referem mais aos princípios (pois as que têm menos são mais exatas que as chamadas de adição, como a aritmética mais que a geometria); mas também, certamente a mais ensinável é a ciência teorética das causas (visto que ensinam aqueles que dizem as causas de cada coisa). O entender e o conhecer por eles mesmos pertencem principalmente à ciência do mais cognoscível, já que o que procura o saber por si mesmo elegerá a ciência mais ciência, e esta é a do mais cognoscível; mas o mais cognoscível são os princípios e as causas, pois partindo destes e por meio deles as demais coisas se fazem notórias, e não aqueles pelas coisas subordinadas. Por outro lado, é suprema entre as ciências, e mais principal que a subordinada, a que dá a conhecer em vista de que (Tinos enekeri) se há de fazer cada coisa, isto é, o bom de cada coisa, e, falando em geral, o melhor na natureza inteira. Por conseguinte, segundo tudo o que se disse, recai sobre a mesma ciência o nome em questão, já que há de ser necessariamente uma ciência teorética sobre os primeiros princípios e causas, pois também o bem e o "em vista de quê" é uma das causas.

Ora, que esta ciência não é um saber fazer, torna-se claro no que se refere aos que primeiro filosofaram, pois os homens começaram a filosofar, agora e no princípio, pelo assombro, primeiro admirando-se das coisas estranhas que tinham mais a mão, e depois, ao avançarem pouco a pouco, fazendo-se questão das coisas mais graves, tais como os movimentos da Lua, do Sol e dos astros, e a geração do todo. Mas aquele que encontra dificuldades e se assombra cai na conta que ignora (e por isto o mito é de certo modo filosofia, pois o mito se forma de prodígios). Porém, se os homens filosofaram para fugirem à ignorância, é claro que iam ao encalço da ciência pelo saber e não por utilidade alguma. Testemunha isso o que ocorreu efetivamente, pois uma vez providas quase todas as coisas necessárias e as que servem para a comodidade e o bem-estar, começou-se a procurar esta sabedoria. É evidente, portanto, que não a procuramos por nenhuma utilidade diversa; e assim como dizemos homem livre aquele que existe por si mesmo e não por outro, assim também desta, como a única que é livre entre as ciências; porque só esta tem o fim em si mesma.

E por isto, justamente, poder-se-ia pensar que sua posse não é coisa humana, pois em muitas coisas a natureza do homem é serva, e, segundo Simônides, "somente Deus teria este privilégio", e não seria digno que o homem não procurasse a ciência que lhe é adequada. É certo que se os poetas dissessem a verdade e a divindade pudesse ter inveja, isto ocorreria muito provavelmente e seriam infelizes todos os que são superiores. Mas não é possível que a divindade seja invejosa, e sim que, segundo o provérbio, os poetas mentem muito, nem há que pensar que haja outra ciência mais digna que esta, pois a mais divina é também a mais digna, e só esta o é em dois sentidos: é divina entre as ciências aquela que tenha principalmente Deus, e também se houver alguma acerca das coisas divinas; e só a esta acontecem ambas as coisas; porque parece a todos que Deus é causa e um certo princípio, e que Deus terá esta ciência, ou só ou principalmente. Todas são, pois, mais necessárias que esta; superior, nenhuma.

É porém mister que sua posse venha a ser, de certo modo, contrária para nós ao que foram as investigações no começo. Pois todos começam, como dissemos, por se assombrarem de que as coisas sejam assim, como as máquinas dos jogos que se movem por si mesmas (para os que ainda não viram a causa), ou as revoluções do Sol, ou a in-comensurabilidade da diagonal (pois a todos parece assombroso que algo não seja mensurável com uma unidade suficientemente pequena). Mas é preciso terminar pelo contrário e melhor, segundo diz o refrão, como nestas coisas, quando se aprendem; pois nada estranharia tanto ao geômetra como o fato da diagonal revelar-se mensurável.

Fica assim dito qual é a natureza da ciência que procuramos e qual é o fim que esta investigação e a ciência inteira há de alcançar.

(Metafísica, I, 1-2.)